Ingredientes:

– Nascimento ;
– Período de vida;
– História;
– Pensamentos;
– Outras mulheres;

Uma narração sobre o Modo de Preparo:

Estava muito difícil para ela, constituir a ideia, ou, muito melhor; a trama bem enredada dos porquês de determinados comportamentos serem como eram. Não lhe bastavam as respostas de sempre. “É assim mesmo…”, “Você está exagerando..!”, “Tudo é machismo agora?”, “Tudo você quer discutir feminismo, agora?”, “NOOOOSSSAA ! COMO VOCÊ É RADICAL….!” “Mas isso não tem nada a ver!”

Estava na hora de ir além daquelas respostas insatisfatórias e tão rasas: “a-profundadas”. Queria saber mais sobre os comportamentos que a faziam sentir-se mal desde pequena principalmente com relação aos homens. Principalmente aqueles produtos da cultura masculinizante¹; os “super-machos”. E, aliás, o que seria masculino? E feminino?
[¹Assim digo, masculinizante, masculinizado e feminilizado, pois reforço a ideia de que devemos re-pensar aquilo que é masculino de fato, e o que é feminino].

“Órgãos genitais determinam o que é masculino e o que é feminino! Pronto, chega dessa baboseira…Que diferença faz?” Ok…! – respondia mentalmente, e em seguida, perguntava-se: “Então, quem é que define o que deve o masculino ser, o que é que deve vestir, como deve se comportar…? E o feminino? Quem define e porquê? O órgão genital? Ou a repetições de padrões sociais abstratos e ultrapassados…?”

Como é que os “órgãos reprodutores femininos” poderiam definir a forma como ela deveria falar, a forma como deveria vestir-se ou  a forma como deveria sentar-se? Estava difícil expressar os significados através de suas experiências, somente, identidade, vivências, lembranças, sentimentos, sentidos, etc. Sempre, lhe atrapalhava a “necessidade” de um suposto “pensamento racional”, ou antes de um AUTOR que versasse sobre…

Foi quando formaram-se verborragias em seu interior… Palavras e palavrões, que juntos formavam enredos enormes; sem começos, sem meios, mas com finais concretos. Tantas e tantas histórias picadas… Arremessavam-se sobre ela, também, pensamentos torturantes de uma  falsa consciência, socialmente imposta, desde seu primeiro dia de vida; quando rompeu o cordão umbilical.

É, realmente, era muito difícil racionalizar. Mas foi depois que começaram as inquietações que começou a funcionar; tudo começou a sair de si. Em conversas com amigas, pequenos encontros de mulheres, filas de banheiro, “chazinhos da tarde”… Ia libertando suas ideias, e elas começavam configurar-se em peças dum grande quebra-cabeças, por anos proibido de ser utilizado ou mesmo citado pela ditadura da “cultura machista”.  Podia agora somar-se as outras e entender melhor o que significava ser uma mulher adulta, uma criança, velha ou adolescente… Ainda haveria muito o que digerir sobre seu processo de socialização, mas já era possível colocar algo no papel.

Já não era só possível como preciso; produzir leis, pinturas, peças de teatro, músicas, esculturas, escritos, palestras, pixações, lambe-lambes, protestos, candidaturas, festas, filmes, blogs, vlogs, tudo, tudo…

Participar da vida pública não é um direito é uma condição sine qua non, também assim o é na vida privada, que muitos HOMENS nos insistem em não nos deixar falar. “Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher….”

E tem mais… Muito mais que pode ir nessa receita. O que é que te segura? O que é que você não pode dizer/fazer/pensar por ser mulher?

Agora chega o momento de mostrar que não estava exagerando, que seu pensamento, de um íntimo profundo, não era tão assim, tão; só seu. Era também o de outras mulheres, como ela, que independente de uma relação, próxima ou não, compactuavam das dores e alegrias semelhantes de ser mulher.

Tentarão dominá-la, silencia-la, calar-lhe os pensamentos, dizendo que são radicais, que são “feminazis”, que seja! Tentarão, sobretudo, fazê-la ter dificuldades em ver a verdade, quando ocultarem suas verdadeiras intenções, abraçando suas causas e ideias, dizendo-lhe que estão ao seu lado, quando não estão (ainda lucra-se muito: capitalismo um dos melhores amigos do machismo…) Porém, não tenha medo, não é radical nenhum pensamento feminista, frente a violência diária a que fêmeas de diversas espécies vem sendo submetidas. E nós, sabendo disso, temos o dever de nos manifestar! Nosso pensamento último é a equidade e equiparação dos direitos humanos, já “conquistados”, por assim dizer…

Moça, fica aqui frisado para você:

Está na hora de você botar no papel tudo isso. Está na hora de você poetizar sobre. Está na hora de fazer belos retratos. Está na hora de produzir arte. De produzir o amor feminino. De falar de menstruação, de comer placenta, de sexo, de contraceptivos, de creches, de escolas. Sobre cada ato, sobre cada detalhe, cada palavra usada, cada relação, cada comportamento masculinizado que a oprime. Está na hora…De botar no forno receitas veganas, que libertem TAMBÉM  outras fêmeas oprimidas. Está na hora de libertar o feminino. 

É impossível que da noite pra o dia tudo seja uma bela papelada do que devemos mudar nesta atual estrutura social. Aliás, já existem muitos escritos, mas é necessário que escavemos perscrutantemente cada detalhe da relação com o ser menina, mulher. E se necessário, faremos teses, mestrados, doutorados, faculdades, mais e mais livros… Filosofias, teorias, sim, seremos, AS GRANDES PENSADORAS… Estamos prontas! Não precisamos de violência física para alcançar nosso objetivo, pela qual fomos submetidas diversas vezes para fazer coisas contrárias a nossa vontade; não faremos derramamento de sangue, nem ferimentos profundos em inocentes, como nos fizeram todos esses anos, chamando-nos CULPADAS… Que fique avisado porém, que se precisar, não vamos poupar nenhum culpado. 

Não nos “vitimizamos”, como dizem alguns por aí, teorizamos o concreto, e mostramos que não somos, nem nunca fomos menos do pensavam que jamais poderíamos ser.

“Enterram-nos, mas não sabem que somos sementes…”

Andréia Maressa
Rio Claro, 18 de julho de 2016.

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