Essa noite acordei assustada com os berros do Carniça. Carniça é um gato bege que mora na casa vizinha, logo aqui, na esquina. Carniça é um gato medonho, desses que parece um bibelô; não se mexe em cima dum bistrô. Carniça está sempre muito imundo, com graxa do carro de todo mundo. Carniça acorda tarde e vai dormir cedo…Por isso sempre anda devagar, um passo aqui, outro acolá. Encontrei minha caneta na sarjeta, achei engraçado, estava no mesmo lugar. Ninguém quis levar… A mesma coisa acontecia com Carniça. – Gato preguiçoso! Não sai do lugar…Nem mesmo pra se espreguiçar! –Mas como eu sabia que era o Carniça? – Seus berros eram inconfundíveis…! Entendia cada palavra daqueles miados! …Mas, não foi por isso que vim escrever com a caneta que achei, foi outra coisa  que do Carniça me lembrei. Em plena tarde, saía eu as beiras das seis horas, quinta-feira.  Abri o portão e…Todo o lixo estava no chão! Lá estava Carniça , ocupado, comendo Carniça.  Achei engraçado pensar na coincidência do nome, apesar do infeliz propósito de não passar fome. Olhei-o por um instante enquanto ele me punha os olhos grandes, cheios de medo, por ter estourado o saco de lixo logo cedo. Andei devagar, procurando não o assustar e voltando para dentro, busquei algum alento. Voltei com um pedaço de pão. Carniça estava faminto, comendo lixo apenas por instinto. Foi quando lhe dei a ideia de outra coisa experimentar. Carniça pegou o pedaço de minha mão, todo desconfiado, saiu correndo em outra direção. Largou o lixo aberto, para minha fúria.

Pensei, e bem como interpretei, Carniça nunca mais voltou .

O lixo revirado deixou meu cérebro atacado e estômago irritado; lembranças e falsas esperanças.   Eu era o lixo revirado. E que triste sensação ser agora lixo que ninguém vai recolher, cachorro nenhum vai querer, serventia nenhuma ter… Já me tiraram tudo, me sugaram um mundo, que nem Carniça mais sou eu. O lixeiro até passou…Mas, pouco nobre, me recusou! Só porque estava com as feridas abertas? Um saco rasgado mostrava-me as entranhas, como quem pede leito, descanso, cama… Ninguém voltou, buscaram-me apenas na fome. E na avidez me chamaram banquete, comeram-me, lambuzaram-se, mas por um pão perderam-se novamente à razão. Não passava eu de um lixão. Nunca mais voltariam para me amarrar das feridas que me abriram. Ficaria ali até que alguém tivesse compaixão e botasse-me no lugar correto…O caminhão.

Carniça… O que será que está aprontando? Só ouço seus berros soturnos… Certamente, aproveitando outros momentos noturnos.

Andréia Maressa
Rio Claro, 11 de agosto de 2016.

 

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