Foi a primeira vez que alguém ofereceu tirar a minha vida. Diferente de como eu pensava que seria, a oferta não foi tão objetiva;  “eu vou te matar!” Com criatividade, o sujeito me disse: “dá a bolsa, filha da puta, ou vou estourar seus miolos!”.

Não senti medo. E achei que me faria um favor aquele cano acinzentado no centro da minha testa. Tudo o que eu era estava reduzido àquela bolsa. E, paradoxalmente, tê-la, implicaria na ausência de minha existência. 

Felizmente ou não, passei a crer, naquele instante, que seria  aquele, este motivo; indigno de morrer, e recusei, insistentemente, que me levasse a bolsa e a vida. Dando-lhe alguns golpes enquanto pedalávamos, cada um em sua bicicleta, consegui fazê-lo desequilibrar. A vida, como pensava, nunca esteve sob meu domínio. Não nos pertence. A bolsa, porém, era minha, e ele não a levaria! “Ah…! Não a minha!” 

Era já fim da noite quando tudo aconteceu… Segundos, minutos, não sei… Hoje, refletiram horas intermináveis da agonia em não saber, quando é que vou mesmo morrer.

A sensação de surpresa desagradável e adiável, depois do susto tensionado, virou fato semi-consumado; “e se ele tivesse mesmo atirado?”

É certo que em movimento, poderia ter ele errado… Ou mesmo que jamais tivesse tentado. Deixou porém o fado; “terá o próximo coragem?”

A bolsa e a vida permaneceram. A bolsa, mais intacta do que eu. Preocupação de alguns ao perguntar: “Mas te levaram alguma coisa?”. É claro que uma hora ela ficou pra lá e pra cá, mas foi no puxa-puxa que gritei, a salvei e o assaltante afugentei. Pôs-se a pedalar noutra direção. 

Ele foi o primeiro a me ofertar, de maneira tão gratuita, a morte … E aqui, na incerteza da sorte, fico pensando; não teria sido melhor aceitar, oferta tão generosa? Anular-me em troca de uma bolsa tão vazia quanto a minha existência… 

Andréia Maressa
Rio Claro, 01 de Abril de 2016.

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Um comentário sobre “A primeira vez a gente nunca esquece

  1. A bolsa até pode ser vazia ou nela conter alguma essência do Ser, mas sua ausência não pode ser dessa forma, deve seguir o rumo da vida, assim como se segue o rumo da história.
    A coisa tá muito feia mesmo Andréia e caso seja real, dou graças a Deus por tê-la aqui, nem que esse aqui seja no virtual. :)

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