Abriu a porta da cozinha, as sacolas e um pacote de rosquinha. Foi a primeira coisa que reparou; aquele buraco em formato de coração no meio do disco marrom. Era o buraco do peito, não da rosquinha… Ou do estomago?, há tempos vazio, incapaz de fazer qualquer prato. Não havia sentido em cozinhar, limpar, banhar-se e até mesmo caminhar. De certo, preso às antigas paixões.Colocou um biscoito na boca. As prateleiras e vitrines pareciam mais cheias do que o buraco… Não saciaria. Incompletude.

Tudo eram “eles”. Nunca o eu sozinho lhe pesou tanto. Os amigos não perguntavam mais “e aí como é que vocês tão?”, agora é só ele. Se está bem, se já passou, se já superou; ele. Ninguém perguntava sobre “vocês”. Estou só.

Achou que seria melhor nesse quesito; separação.

A rosquinha ricocheteou na parede do estomago. Correu para o banheiro. Sentado, no vaso, só pensa nela e na rosquinha; cagando a relação, indo embora. Ela foi e me deixou largado nessa casa cheia de móveis. Portas que não se abrem mais… O coração está fechado para um outro amor.

Deu descarga e fechou a tampa do sanitário. Fechou também os olhos e depois de bem respirar, notou que ela estava em seu calcanhar; ‘aquele fio de cabelo, comprido’. Riu. Era como a canção de Chitãozinho e Xororó. Mas já se passaram meses… O que fazia aquele fio ali? Precisava limpar a casa.

Retirou das sacolas um novo rolo de papel higienico. Das compras trouxe o biscoito, o papel higienico, duas canetas, uma cueca nova e uma lata de cerveja. Não comprou tudo o que precisava, o mercado estava uma facada! E além do mais, o que compraria? Não sabia mais o que comprar… Com quem discutiria o que levar? Qual era a graça em decidir você mesmo entre o brócolis ninja e o brócolis nacional? Em prometer pra si mesmo um bolo de fubá com calda de goiabada, daquele jeito que “você gosta”… ? Em entrar no provador escondido, e vestir aquilo que não ia levar? Em colocar forçosamente aquele rabanete no prato, depois de tanta reluta pra comprar: “porque vai fazer bem, amor, você vai ver!”? Em amassar o carro novinho no estacionamento do mercado pra dizer depois que tá tudo bem só pra você não se sentir culpado de fazer um programa tão acabado, como o de ir ao mercado? Em pegar absorventes mesmo que não for usar? Camisinhas, então!? Em comprar milho e fazer pipoca “pra assistir aquele filminho?”

As outras sacolas permaneceriam a semana toda embrulhadas. Esperando que ela voltasse. Assim poderiam desmbrulhar juntos. E guardar cada coisa em seu lugar. Onde afinal elas deveriam estar? Onde afinal ela devia estar?

Foi pra cozinha. A rosquinha esperava o café. Mas o café também esperava por alguém pra ser coado. E o coitado, acabou deixando de lado, a possibilidade de sofrer mais um bocado.


Andréia Maressa
Sem data.
Para Iarima

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