PARTE I

 


Quantas vezes você se sentiu bonita(o)?

Vou abrir meu coração.  

Desde que entendo-me por gente a sensação era de ser feia, esquisita e bizarra por diversas vezes. Desde sempre, acreditei, mais no que as pessoas falavam do que eu mesma acreditava. Era batata!, e na maioria das vezes me chateava. Minha coluna cervical paga caro até hoje por isso… 

Na escola minhas melhores amigas, – que deus as tenha, porque com esse deus do qual elas falavam nas aulas de “religião”, eu também sem dúvida não vou estar, – sempre me tiraram sarro. O cabelo era sempre o primeiro alvo. O último e menos engraçados eram meus pais. Quando dava tempo a gente praticava uma zoeria coletiva, coisa de criança… Mas eu era a piada mais engraçada! Acredite você ou não, isso não era só coisa de fundamental…

Eu fui pro ensino médio, onde as coisas caminham devagar…Quero dizer, a zoeira. Foi lá que eu conheci a sutileza da piada engraçada, era só fazer e depois falar; “acha!, veja você!, era só brincadeira, relaxa!” “A Déia é muito estressadinha!” “O Déia você vai aí sozinha? Vamo lá com a gente, na cantina ! – Tô bem… Vou ficar por aqui, lendo”- Era o meu passatempo. Andar e entreter o tempo. Sem medo de sonhar, lá… Lá sim, com certeza era o meu lugar – Papos fúteis sobre unha, maquiagem, cabelos e marcas, nunca me agradaram. Afinal, nunca me encaixavam. “Hahahaha! Imagina a Déia usando isso, que nada a ver!” – E era pra valer! Até eu não conseguir mais forçar o riso. – Era eu. Era eu quem vinha me mostrando para mim mesma! – As risadas foram parando. E eu só ficava na frente, olhando, ouvindo e sentindo toda essa corja que vinha por trás de mim. Era tarde demais. Havia em mim uma tristeza, enlameada com dor e regada ao ódio! 

Foi aí que finalmente conheci a Yasmin, no cursinho. Ela era como eu, não falava com ninguém. Só que ela sentava no fundão e quando abria a boca trazia muita inovação… Não estava preparada. E com quem eu andava? As meninas da frente… Elas eram estranhas como eu, não tanto, porém, me dei bem. As piadas eram nulas, exceto quando o ‘stand up’ do professor não cooperava. Tudo era motivo de risada, sabe? 
Mas foi um dia que uma delas perguntou; “ei! como é ter a tua cor?”

Que meu mundo desabou! Entendi tudo. 

Olhei pra Yasmin, e finalmente percebi, qual era o motivo de sermos tão iguais. Tudo parecia tão abstrato, e eu tão errada a me perguntar: “eu sou neguinha?”… Passei a frequentar mais o fundo da sala. E perceber. Não é normal; sentir como me sintia(o). 
A idade foi chegando, o vestibular se consagrando na dita graduação… Antes disso, não mais que isso, vinha a tal paqueração. Justo na época em que tirei toda a química que desde os doze anos passei no cabelo! Parecia que era uma … Eu era feia. Eu era feia…Eu era feia. Feinha…Pretinha feinha. Negrinha. Menina de companhia. “Cê viu aquela loirinha?” – “eu vi, mó gata!” – “eu vou ali, já volto” – “firmeza”E ia… Nunca até então alguém “chegou em mim”, “se declarou”, ou disse que eu “era bonita”

E o incomodo persistia! Aquilo não me pertencia! Tirada a química e o sorriso ante as piadinhas, veio depois a regalia, de entrar na faculdade. Um mar de expressividade! Deduziram-me aqui; bela. Linda!, e até disseram pela primeira vez; – “Uma negra linda!” – E era uma tal de pegar no meu cabelo, dizer-me coisas ao espelho do ouvir, falar dessas coisas que nunca li… – O que acontecia aqui? 

Comecei a me sentir de novo…Quem sou eu? E logo veio a depressão, quando me pediram um sambão. “Samba ae morena linda” “Olha só esse bundão, quem disse que não sabe sambar” “Olha só que mulherão, Déia!, cala a boca, você é quase globeleza!” “amiga, para!, você é uma negra linda” – Claro, como se eu dissesse você é uma bixa branca linda, né? A QUE SE FAZ AGORA ESSA NECESSIDADE DE DESTACAR A MINHA COR? A QUE SE FAZ A NECESSIDADE DE DESTACAR ALGO QUE… PRA QUÊ? 

Aí!, a necessidade de me idolatrar! Aí bem onde você está! Você que ocupa este lugar que eu sempre quis estar… É o que todos pensam! É o que estão a me dar; oportunidades? De ser linda? De ser bonita? De merecer elogios constantes que nada me vem a acrescentar?Porque eu agora? Eu que sempre fui esculachada? “Você é diferente das outras, gente com a pele assim, costuma ter manchas”

Olhei ao meu redor… Um crescente movimento de discutir cotas e preconceito. As mulheres, cortando os cabelos e, por fim, libertando-se de seus medos. Deixando certamente alguns “brancos” com medo. Aquietemo-nos, pensaram, vamos elogia-las! -Por que não é possível! Como é que a coisa deu essa virada? De patinho feio a cisne, negro?- Tudo bem vamos aceitar! Sou bela! Porque sou… Oras! Estou criando caraminholas…

Mas ainda persistia aquela sensação… E foi discutindo dentro da minha própria casa é que cheguei a conclusão; “É incrível como os gringos adoram uma mulata!”, me disseram, ainda pra complementar; “você lá fora ia fazer o maior sucesso!”, e eu disse, “tá”. 

A beleza deu uma bela virada. Parei e observei, como no cursinho, eu era a única negra ali, naquele meio universitário, com um monte de otários. Todos os elogios me passaram a dar repulsa.  Ampliei o campo de visão e me deparei com uma cidade que passou cinquenta anos depois da abolição, mantendo ainda pessoas escravizadas.Nem precisa falar que sufocos eu já não resolvi passar… Ou precisa? Precisa sim. Eu tenho a vida inteira pra me redimir …

É, foi assim, que eu não quis acreditar que ele estava a me olhar. Aquele belo estrangeiro que eu estava a paquerar… Ecoava apenas em minha mente “como eles gostam de uma mulata”… Eu não conseguia! A minha mente me traia!  E por mais que fosse verdadeiro, aquilo que tanto anseio… Não conseguia! Me senti mal. Fazendo este papel social…De mulata safada. Ele estava enganado quando disse que sou muito bonita e tem uma fila de pessoas querendo se aproximar.  Elas nunca apareceram. E eu posso ser bem bonita sim. Mas não sei… Temo acreditar que não basta só ser bonita… Precisa de um pouco mais que isso pra eu namorar. O que foi essa brisa torta que me impediu de aceitar, que a gente queria era simplesmente se beijar? Coisa da minha cabeça, claro! – Vão me acusar.

Eu tenho que parecer a Beyoncé? Não claro que não… Apesar que agora pouco, minutos antes de chegar em casa e passar a escrever esse texto, fui abordada por um carro, com quatro pessoas, “brancas”, que me gritaram Beyoncé e uivaram! Até desceram do carro, pra me buscar… Eu fiquei assustada! Achei que iam me sequestrar! Adoraram tanto meu cabelo e meu turbante, que acho que queriam me levar. E eu só queria ir pra casa, pedi licença, mas como estava (ESCRAVA) acuada, sozinha e na rua tive que passar pra outra calçada… “Um selinho, então?” “UMMMAÁ!” “LINDA!” – Cuspi tudo que pude. E me deixaram em paz. 

Cheguei a conclusão que sou ESCRAVA da minha condição de ser bela e ao mesmo tempo fera.  Quando será que vou voltar a ser aberração novamente?! Não vejo a hora.

Eu sei! Deveria agradecer por ser sorteada com tamanha beleza! Mas, a mim nesse momento só cabe a tristeza de ser quem sou;  eu.


 Andréia Maressa
Rio Claro, 09 de março de 2016.

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2 comentários sobre “Quando a beleza me trouxe prejuízo

  1. O lugar que a nossa sociedade relega a mulher negra é muito cruel. É incrível como num país de maioria não branca os padrões de beleza sejam de mulheres brancas, em que a maioria das atrizes de novela sejam brancas, em que a grande maioria das bonecas sejam brancas, em que as universidades ainda sejam majoritariamente brancas. As marcas dos 400 anos de escravidão estão em toda parte. Está na absurda ausência de negros e negras nos espaços que lhes são de direito. Está no privilégio branco, que faz com que uma moça branca consiga aquela vaga de recepcionista no lugar da moça negra. Está no olhar enviesado dos vendedores de loja que entre duas mulheres, atenderá primeiro a branca. Acho curioso como brancos e brancas costumam tratar o racismo como “frescura”. Quem não sente na pele tem que, pelo menos, ter a humildade de sentir empatia, de entender que está errado. O problema dos privilégios não é exatamente tê-los, mas ignorá-los, agir como se não existissem e desmerecer o sofrimento que nossa sociedade doente causa.
    Desculpa me alongar Andréia, mas ficou a vontade de te dar um abraço <3

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