SUBTERFÚGIOS

A língua portuguesa no Brasil é carregada de palavras, vocábulos e gírias dos mais variados significados e também origens. Muitas vezes detemo-nos num escasso vocabulário,  pobre e repetitivo, onde as palavras não encontram as dimensões que ganharam primeiramente na mente – Aquilo que gostaríamos de explicar, mas pela limitação palavrética, somos impelidas.  Cercadas de diversas palavras, inúmeras,  que certamente já receberam um significado muito melhor do que aquela estamos usando.
A leitura é fundamental para expansão desse vocabulário,  mas há situações, vivências e pessoas que trazem grande contribuição para o avanço e conhecimento da língua.  
A língua é um músculo duro, porém sensível.  Ninguém dela fala, mas todo mundo a usa pra falar, pra degustar e pra beijar. Nas escolas o músculo mais bem comentado sem dúvidas é o coração… Mas o que poucas cardiologistas, estudiosas e biólogas, como eu, sabem, é que para os humanos, antes de se falar em coração, fala primeiro a língua!
Assim ocorreu; neste episódio que narro, há subsídios para provar que a língua vem antes do coração e que após o coração,  vem também a língua.  Sobretudo, ainda, é com certas pessoas que se aprende o significado de determinadas palavras.
Da fala ao beijo. Encontrava-me num bar quando ela chegou (sorrateiramente) ao grupo em que me encontrava, assim, como quem não quer nada… Ela queria. Fez que não fez, e acabou por acompanhar o grupo assim que a atração principal do local acabou. Seguimos para uma casa de (des)conhecidos. Sentei-me e ela sentou ao lado. Espaço apertado, mais bem acomodado. Contou-me sobre sua trajetória,  falou dos planos, da vida, do tempo, do charuto novo… Encantadora,  a conversa – O sofá, de apenas dois lugares, encurtava, ou a distância é que diminuía? – As mãos dela já estavam em meus cabelos, acariciando-os, enquanto pronunciava palavras-chave para uma próxima proximidade – Onde estavam as outras pessoas? – Paradoxalmente,  enquanto pensava nelas, ouvia a história que ela me contava, quase numa preleção, em êxtase, sobre a vida e seus acontecimentos.  Pus-me a ouvi-la, olhei em seus olhos e perdi o fio da meada, mas ganhei um delicioso beijo na boca. Conferi,  e estavam todos ali, olhando-nos. “Onde estávamos…?”, ela perguntou. Eu já não sabia mais. Hora de ir. “Eu te acompanho”, ela me disse. E fomos caminhando em direção a minha casa.
Scan_Pic0002
Do beijo ao coração. A caminhada se estendeu por outras datas, meses!…. Impossível não se deixar fascinar por aquela chegada, inesperada! A voz rouca dizia-me, calma, “vá como calma, que eu sou dessas que ama todo mundo” – Então me caberia também… – O meu coração palpitava a troco de nada; um simples “oi”, ou “tchau”, acompanhados de um beijo, me davam uma satisfação danada. Estava preparada para aquele romance proibido…! Mas, para o que será que ela estava preparada? 
Da fala ao coração. Foram duas vezes em que ela subitamente apareceu com uma nova “afeição”, única, dessa vez. Disse-me que “agora queria tentar ser de uma pessoa só”.  Só não era eu essa pessoa…! – Sendo assim, não sobraria espaço para mim. “Quem sabe, não podemos ser amigas? A sua companhia é importante para mim…” Enfim… Fiquei triste, chorei e acabou.  Daí ela voltou. Apareceu no mesmo bar que nos encontramos a primeira vez. O isqueiro emprestado re-acendeu a chama no meu coração. E aí não teve jeito, a vida tens seus defeitos; tudo se repetiu como da primeira vez. Poderia copiar e colar o texto, mas houve ainda um terceiro acontecimento [e quem sabe agora um quarto?]¹. Dessa vez, depois de tudo retomar, ela preferiu mudar a frase, ficando assim a sentença; “Sabe que é?…É que eu te via mais como amiga… E as vezes isso acontece, a conversa flui e de repente a gente tá se beijando…” Por fim ela passou a me ignorar e num ato de se rebelar bloqueou meus contatos pra eu ver eu me afastar. 
Do coração a língua.  A vida é mesmo um grande aprendizado! Tentei buscar outras formas de lidar com a minha tolice, mas decidi que como toda boa escritora eu ia mesmo é aprender umas boas palavras que pudessem descrever com perspicuidade todas as circunstâncias advindas da participação dela em minha vida. [Acabou virando musa, rs]¹.
Não soube, no princípio, dizer nenhuma palavra que definisse os últimos argumentos por ela usados nessas conversas³. Conheci, por fim esta; num dia em que folheava um livro: “Assim ela criou e reinventou os antigos subterfúgios…” Não precisei de um dicionário. Instantâneo¹. Um exercício muito interessante!!! Uma única palavra explicou para mim aquilo tudo que eu já devia ter entendido no primeiro “desencontro” com essa jovem moça¹.

Se eu atingir meu objetivo, cara leitora, você também não precisará consultar um “Aurélio” da vida para entender… Que o que aconteceu aqui, foi que a pessoa da qual falávamos, usou uma frase clichê para criar uma dispensa, ou seja, ela usou o pretexto da “amizade” para evitar ou fugir “algo a mais comigo” – Algo a mais isto que eu também não sei… – Uma escusa fraudulenta, eu diria, para que ela não precisasse passar pela dificuldade de dizer, “Olha eu não perdi o …”, a verdade. É, e talvez ela tenha dito a verdade, por mais estranha que fosse… Mas, seja como for, a palavra já foi está¹ aprendida. 
Os eufemismos parecem nos custar muito… Mas hoje vejo como um presente! Afinal, a verdade nua e crua doí mais em quem? E eu, no final das contas, não teria aprendido palavra tão …. !!!  
Obrigada!

Para Luiza.
Rio Claro, setembro de 2015.
1. Editado posteriormente.
Andréia Maressa

Anúncios

2 comentários sobre “SUBTERFÚGIOS

  1. É tão confessional que parece ficção. Mas não é. É engraçado, na sua percepção mais irônica, de que tudo, absolutamente tudo, pode mudar em apenas um instante. E o pior: não há nada que possamos fazer sobre isso. O que fazer? Eu simplesmente durmo e espero o dia seguinte. Isso nunca falha.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s