Carta para Tito

Talvez esse não seja o melhor momento para lhe escrever. Você vai achar tudo uma merda…Mas eu prometi que escreveria tudo o que eu sentisse naquela noite depois que conversássemos! Não posso deixar de partilhar com você tudo o que me ocorreu e saber… Se sou a única que pensa assim.

Quando é que foi a última vez que você caminhou olhando para os seus próprios pés? – Já que não se pode andar olhando para si mesmo – Que depois de uma noite cercado de gente você sentiu uma imensa vontade de estar ; consigo mesmo? Uma ânsia, uma angústia, um sentimento de repulsa a cada olhar, a cada gesto, a cada figuração humana… A cada humano que passava, você se sentia mais… Viver é uma insanidade, Tito! E estar cercado de gente me parece uma insensatez gigantesca nesse momento em que lhe escrevo. Quem se dá conta disso muito cedo, como eu, tem gravíssimos problemas de socialização. 

Dia após dia as pessoas cometem injúrias, assaltos, homicídios, criminalidades infindas, mentiras, brigas, adultérios e tantas outras incontáveis “barbáries” que tiram o sono de muita gente. Estamos cercados por essas pessoas, essas mesmas!, que cometem ou cometeram esses tipos de atos. Mas, sabe de uma coisa? Essa madrugada enquanto eu andava pela rua, olhando para os meus sapatos, cheguei a demorada conclusão de que; dentre todos esses fardos de convivência o mais desagradável era o meu próprio! Os meus dizeres, minhas ações, todo o meu ser por fim é mentiroso. E lá estava eu mentindo para todas aquelas pessoas… Como eu poderia adivinhar que por baixo de todo aquele invólucro é que se encontrava a minha verdadeira mentalidade? Como teria percebido não fosse a minha caminhada solitária pela noite. Meus sapatos me contaram os segredos de Arthur Schopenhauer sobre a Solidão e a Liberdade que nela existe.

E foi depois dessa franca conversa com meus pés, Tito, que passei a enxergar em minha solidão física um benefício: a conexão com meu próprio intelecto e o eu verdadeiro.

Assim tudo sucedeu: tomei emprestada a companhia de algumas amigas para chegar até uma festa junina. Fomos de carro, felizes e contentes a cantar – Quase como que num conto infantil, onde as amizades e amores são para sempre… – Por lá encontrei diversos corpos que seguindo a exigência social, aglomeravam-se num espaço pequeno, enfadonhamente, enquanto buscavam também, respirar, conversar, se entreter, beber e dançar. Eu, ao contrário, procurava encontrar meu espaço. Aquelas com quem eu tinha chegado mesclaram-se à massa homogênea de pessoas. Uma pontada disparou em meu peito a força de uma atitude; encontrar alguma referência, algoalguém, que pudesse me socorrer! Mas era tarde… Quando me percebi deslocada daquele “bololô” de gente, elas já tinham ido embora – Sem mim. Voltei a pé, no silêncio da rua e da madrugada calada… Pude ouvir os murmúrios de meus pensamentos. No principio da caminhada fiquei chateada, o peso da solidão me desconcertou… Acredito que foi nesse momento que meus pés começaram a contar essas coisas todas que te falei no começo da carta.

O silêncio as vezes não cala, Tito.

 Acredito que cada um de nós só pode se perceber quando estiver completamente só. Você acredita nisso também? E quanto mais tempo, melhor será essa descoberta. Porém, aí está o grande problema! Torna-se muito custoso ter plena consciência de sua existência! Sentir-se, ser alguém num mundo massificado é terrível! Saber quem você é de fato só dificulta muito mais as coisas – Quem é você Tito? –  É como se descobríssemos a tal da essência humana, que não é nem um pouco digna de ser aqui descrita. – Somos assim mesmo? Este/a sou eu? – Terrível descoberta para uma noite tranquila como aquela, não? E como bem exemplifica o ditado, “quem aprende a andar de bicicleta, dificilmente vai desaprender”, assim também acontece com quem aprende a olhar para si mesmo; podemos enxergar cada vez com mais clareza aquilo que cercados de gente, tanto evitávamos olhar.

Quando eu já me aproximava de casa, um grupo de conhecidos me abordou na rua, perguntando se eu queria ser acompanhada até minha casa, eu disse que já estava perto de casa e que naquela madrugada eu mesma estava a me acompanhar. Não podendo entender, seguiram seu caminho e eu segui o meu.

pés

 

Andréia Maressa
Rio Claro, junho de 2015.
para Antonio.

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