“Quem desdenha quer comprar”

Observa-os de longe, procurando deixar de ouvir suas conversas. Arrependia-se, cheia de ressentimento, de os ter aproximado em certas ocasiões. Podia, entretanto, a distância esconder aquele ciúme? Ou apenas deixaria-o mais evidente? Concentrava-se em não senti-lo, empregando sua força de vontade, alternadamente, em qualquer outro pensamento. 

As repetições deste sentimento tinham-lhe feito finalmente entender e aceitar, não apenas como verdadeira, mas como axiomática, evidente por si mesma, absolutamente indiscutível a afirmação já dita diversas vezes pelos amigos e amigas: “Quem desdenha quer comprar, minha cara!” 

Infame altivez a fez frouxa de rir, por vezes, imaginando tal coisa como estranha brincadeira… Isso seria algo impossível; jamais lhe ocorreria! Mal sabia que quem em seus olhos olhava, notava facilmente aquele brilho costumeiro a refletir quando dela estava a se referir.

 

Beijaram-se. E tornava a retesar-se, rija sobre a penumbra de seu próprio estupor habitual. Mas resistia, firme, coagida agora tanto pelo orgulho quanto pela vergonha de assumir tamanha estranheza. Um calafrio tirou sua coluna do eixo habitual, fazendo-a sentir uma onda de tremor subir da região lombar até a nuca. Conversava com ela mesma enquanto assistia ao trágico espetáculo. – Não de bola! Confie em você e na Razão… Vá em frente, e pare de pensar essas bobeiras! Você não sente nada disso! É apenas um ciúme bobo… Coisa de amiga tonta! – Aturdida com o  fervilhar de todas as entranhas e extremidades corpóreas, não entendia porque havia desprezado antes esse… Aquela remota possibilidade, que antes não passava dum gracejo, agora em outras veias, novamente se perdera. Mas era seu o coração que sentia pulsar.

Aproximavam-se ambos, sorrindo um para o outro e para ela, que abjeta de seu desdenho anterior, permanecia fixa na mesma posição. Caminhavam em sua direção, certamente, para lhe dizer algo. Aquela voz amiga, sempre tão habitual, causou-lhe um frêmito estranho na região do diafragma. – Era tão doce e cordata, mesmo ciente de sua tola antipatia. – Queria-a para si, mas também queria que fosse embora naquele instante!

– …e estamos namorando! – Foi somente aquilo que pode ouvir. Seu rosto amendoado e gracioso tomou uma expressão incongruente, de espanto magoado e desaprovador. Porém, como já havia por tanto tempo demonstrado por ela sua negligência… Mostrou-se indiferente e dispensável diante daquela coaptação. 

Poderia conjurar outras formas de mantê-la por perto.  Mas sentia-se comovida e humilhada por aquela magnanimidade. Pois ela sabia o que sentia – sim, ela sabia… – e, mesmo assim, ainda mantinha aquelas atitudes amistosas, oriundas de uma amizade verdadeira, posta de lado por essa… besteira?… Admirava-a tanto que chegava a ter inveja e raiva. Não suportaria dessa vez – Como calar essas vozes malditas? – Melhor que fosse assim… A distância é como o tempo; um santo remédio! Além do mais, o que ela iria pensar, os amigos e familiares caso descobrissem esta barbárie

Guardou para si tudo aquilo que sentia. Encarcerando em seu peito aquele amor, fez do coração um cativeiro. Sendo a pena mais severa o seu próprio definhamento. Morreria a qualquer momento engasgada em seu próprio vômito de palavras… Salva, todavia, de qualquer maledicência. 

– Parabéns ao casal! Fico feliz por você, amiga. 

quem desdenha quer comprar

Andréia Maressa 
Rio Claro, 24 de maio de 2015.
Para Bia

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