FUMAÇA


Traga e depois de muito conter a fumaça expira-a para fora de si pelo orifício boca. Sobe tão pouco densa, parece ir devagar, flutua. Eleva-se em pensamento juntamente com a fumaça. Quanto empenho para que lhe saísse aquela massa gasosa, mas tão leve. Do cigarro partem fios grossos que emaranham-se no ar como cabelos flutuantes, da boca parte a massa que vai perdendo as formas a medida em que se distancia.
 
FUMAÇA
 
Inspira profundamente o ar e sorve parte da fumaça de volta para si sem querer. Exaurida das partidas repentinas, lamentava-se quieta e distante em seus próprios pensamentos. Solta o ar deixando a queixa ser ouvida pelo Silêncio da rua em sons de sopro.  
Aquilo que jazia no peito era fruto de um vazio. Até onde iria aquela fumaça que já esteve em seu peito? Mesmo que por pouco tempo, esteve aqui, ela pode sentir. O peito agora centro de massa do corpo, deixava que a Terra exercesse sua força, puxando-a para o chão. Fez sentir o peso do Eu Sozinho. Solidão era gravidade, e sentida, faz tristeza; tragou o cigarro com descuido e tossiu grotescamente engasgada. A obstrução das vias aéreas pela cólera da incompreensão de sentidos a deixou com os olhos vermelhos e cheios de lágrima. – Abandonaria aquele cigarro depois daquele trago! – Já sabia que um dia ela iria embora… Mas por que sofria tanto? Chegara a hora. A vida, as vidas e a fumaça, enfim, são passageiras. Ainda, porém, era possível contemplar sua partida. – Por que vai tão devagar? Aos poucos? Quase como que se não quisesse deixar de pairar ao meu redor?
Observava ainda a nuvem branca que em pouca pressa ia de encontro ao poste que iluminava a escuridão da noite. Distraída de sua última promessa, levou novamente o cigarro a boca. Traga e sorve a fumaça como se fosse um cálice transbordando em quente e espessa fumaça. Engole tudo como se fosse sagrado líquido, jogando para trás a cabeça, solta depois a fumaça como se quisesse expulsar também todo o ar dos pulmões. Não consegue.
Dissipava-se ao longe, finalmente, a fumaça da primeira baforada. E ela, ia junto em pensamento… Havia em seu ato uma certa ausência de propósito e quem sabe de existência. – Somos fumaça. – Há muitas inseguranças no ser fumaça. Para onde vamos? Quando vamos? De que realmente somos feitos? E por aí vai… Um vento vem e te arrasta, te leva, ou pode você fumaça pairar sobre longo período antes de se dispersar. Somos tal qual a fumaça?  
Não teríamos nem formas de ser! O que esperar dos seres fumaça? Haveria graça em conviver com passagens? Cada um moldado pelo ar e pelas circunstâncias.Incertos. Inseguros.  Incompletos. Impermanentes.  Era mais fácil, no entanto, aceitar… Aquilo que faltará. – Ninguém guarda a fumaça pra sempre, que a fumaça deve ir. Não é mesmo? – Chegava a compreensão de tudo.
Não havia percebido a nevoa que ao seu redor se formava. Do cheiro que em sua roupa e corpo  impregnava. Ah se tivesse percebido! Saberia que ela não a deixara como pensava, não completamente e assim tão de repente! Estava ali com ela, em suas entranhas;  boca, narinas, garganta e pulmões. As pessoas se vão, sim, mas lentamente, aos poucos. Como a fumaça, alguns procuram ocupar também outros espaços, outros corpos, outras vidas, outros planos, outros rumos…Que num certo momento em tantos que já cabe, parece não estar mais ao seu lado e ao lado de ninguém. Misturam-se tanto as fumaças, perdem-se em suas composições, origens e certezas…
Ia confortando-se com a partida. Deixaria a fumaça ser levada pelo vento para o incerto. Levantou-se cambaleante do chão, lutando contra a gravidade da suposta perda. Jogou o cigarro na sarjeta e voltou a caminhar pela rua. Enganava-se a fumante. Estava coberta pela presença da fumaça.
 
Andréia Maressa
Rio Claro, Maio de 2015.
Para Luíza Gonzalez.
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