Sobre a pele que habito

Visto-me. Teciduo-me duma couraça marrom todos os dias antes que qualquer alma-viva possa me ver. Como se não houvesse escolha, obrigo-me e sou obrigada a sobrepor uma segunda pele.
Visto a tal obrigação, de ter que dela me vestir, desfaço-me das possibilidades de ser quem realmente sou. Pois a couraça é intransponível de dentro para fora, e externamente, facilmente penetrável. Assim sou, turvada pelo que dizem de minha pele e das poucas possibilidades que ela me dá. Já não sou Andréia, nem encontro espaços para mim, sou outra negra qualquer, que agora, neste texto, reclama seus direitos de alforria. E assim o é, pois a couraça faz pensar um sei lá o que de coisas que não sou. Sou nada, anulo-me por conta desta outra pele, que é preta. Eu e tantos outros que vestimo-las, somos anulados, somos todos “pretos”. Como se houvesse escolhas de ser ou não negro, somos acusados e mal-ditos das mais diversas formas.
Caminho pelas ruas, vejo tantos negros e pardos, e confirmo; sim somos as minorias. Escuto maldizeres sobre o tal do “nego” – Porque será que nego fez isso? – penso – e conforto-me, é culpa da pele, deve ser preto, já que assim o chamam; de “nego”. Continuo a caminhar, mas faço-me de surda, ainda que possa escutar, olho e não vejo, apesar de poder enxergar. Admito, por fim, que aqui onde estou (faculdade pública) e onde cheguei (classe média); “sou exceção a regra”, pois não seria qualquer negro que estaria em meu lugar. A regra é clara; para os escuros não tem vez. Tivera eu nascido na favela. Faria jus a minha cor. Preto é pobre e burro mesmo.
Mas já se achou a solução; a tal da Educação. Fico feliz em saber que abriram as tais das cotas raciais… Assim os pretos que não são exceção como eu, terão oportunidade de estudar e ser alguém na vida. Além de tantas outras” inclusões” que não caberiam aqui, de TÃO poucas. Ah! Mas são tantas as discussões que já não há mais o que reclamar… É claro, devo me calar, está tudo sendo resolvido, e eu estou em posição de privilégio!!!
Abri o jornal esta tarde e me deparei com a notícia de um homem morto por um policial em North Charleston, na Carolina do Sul – EUA. Foram oito tiros em um sujeito desarmado em plena luz do dia. A única ameaça clara, era o fato dele possuir essa tal pele escura¹. Evidentemente, um episódio dentro da normalidade. Como não seria normal um policial assassinar alguém assim? É só olhar para os índices… E a maioria dos bandidos tem a pele escura!
Na semana anterior uma criança de oito anos foi hostilizada na faixada de uma loja na rua Oscar Freire, São Paulo – Brasil. Uma vendedora, sem perceber a presença do pai da criança ao lado, tentou expulsá-la da frente da loja, por pensar que ela venderia “coisas” lá. A criança também usava essa segunda pele, motivo da confusão pela vendedora.²
Ainda antes desses dois episódios, durante uma aula em que eu e duas colegas ministrávamos, um dos alunos acrescentou um comentário muito pertinente sobre as prováveis origens de algumas doenças virais no continente africano; “Tinha que ser na África! Coisa de preto mesmo!” Alunos muito inteligentes do terceiro ano do ensino médio público.
Na internet, na mesma semana, circulava o vídeo de alguns alunos negros tentando discutir o espaço do negro nas universidades públicas, a professora e os demais alunos começaram a discutir com eles, pois o grupo tirava o tempo de aula com aquele assunto impertinente³.
Não faz muito tempo também, virou polemica os casos de “jogadores macacos” nos estádios de futebol, como o goleiro Aranha4. Como não confundir quem usa esta segunda pele com um macaco?!
Esta noite chorei. Chorei por que nunca havia sentido o peso de minha capa, o peso do meu cabelo, o peso da minha história, o peso da história do negro e principalmente o peso da indiferença. Chorei porque sou negra, e esta é minha culpa. Esta é nossa culpa; nascemos negros. E até quando/to temos que pagar por isso?! Oito chicotadas? Oito xingamentos? Oito Leis Áurea? Oito reprovações no mercado de trabalho, na escola, na faculdade? Oito tiros são o bastante?
É como se tudo estivesse posto a mesa, mas não pudéssemos comer, pois somos escravos de nossa própria condição natural. Fica o direito somente as migalhas, e não se pode reclamar!!! Porque estamos sendo bem tratados. Já estão a discutir os nossos direitos. Ninguém mais precisa se importar ou discutir isso… As políticas de inclusão racial já dão conta de amenizar os preconceitos e as injúrias que nos são oferecidas todos os dias. Impossível, infelizmente, fazer a todos provar desta capa de martírio. Haveria uma lei capaz de obrigar todos a serem negros? Haveria uma outra capaz de tornar todos brancos? Todos pardos? Haveria um modo de acabar com essa merda?! Não somos todos iguais e nem devemos ser! Então porquê?! Por que ainda agimos espantados com a diferença? Potencializando-a para um mal que não deveria existir… Não ensina a aritmética que diferença também e capaz de somar? 
Escravos de uma pele? Condenados pelo que não pudemos escolher? Não!!! Somos todos/as condenados/as a pensamentos segregacionistas! E já passou da hora de acabar nossa escravidão coletiva! Libertemo-nos desses pensamentos! O sofrimento deve acabar! BASTA!
 
muzambo
Muzambinho derretido pelo sol de Bertioga.
 

Andréia Maressa da Silva.
Rio Claro, 09 de Abril de 2015.
(Alterado em 13 de abril de 2015)

 
Notas:
  1.  < http://www.publico.pt/mundo/noticia/policia-branco-disparou-oito-vezes-contra-homem-negro-desarmado-e-em-fuga-nos-eua-1691697 
  2. < https://www.youtube.com/watch?v=mfSW2F3QAI8 >
  3. < https://www.youtube.com/watch?v=P0qAvA8tDOc >
  4. <http://espn.uol.com.br/noticia/436034_aranha-e-chamado-de-macaco-por-torcida-do-gremio>
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3 comentários sobre “Sobre a pele que habito

  1. Arrepiei! Sempre vejo seus textos e adoro. Mas esse é difícil dizer que gostei… profundo e direto ao ponto!
    “Não somos todos iguais e nem devemos ser! Então porquê?! Por que ainda agimos espantados com a diferença? Potencializando-a para um mal que não deveria existir… Não ensina a aritmética que diferença também e capaz de somar? ” Parabéns e continue escrevendo! =D

    Curtido por 1 pessoa

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