[…]Porque o ser humano tem mania de desrespeitar e desprezar os sentimentos dos outros… Mas os que também definem maneiras de amar [ou sentir] dos outros, são pessoas que amam [ou sentem] de todas essas formas, ou tem vontade de amar [ou sentir] assim. Um pouquinho de cada vez.

Surpreendentemente, tem uns ataques tão bom, sútil, eficaz, que dispensa comentários.

Hoje é quarta-feira de cinzas. A igreja ao lado está repleta num ritual litúrgico, algumas pessoas parecem se confortar com a morte. O padre as conforta. Aqui, estou a salvo; de longe, assisto a cerimônia e penso sobre a morte. Ontem foi terça-feira de carnaval. As festas nas ruas estavam repletas, algumas pessoas pareciam se divertir em muita estripulia e bebedeira. Assistia tudo de longe; estava a salvo pensando sobre a vida.

Quem sou eu, você sabe? –Eu não. Então como julgar os outros, o que eles fazem ou deixam de fazer? Como nós, eles também não sabem quem são. Em vida ou em morte, não podemos falar das pessoas, julgando-as como se as conhecêssemos, porque nem a nós mesmos conhecemos. Mas fazemos isso…

Era sábado de carnaval quando recebi a notícia do coma. As últimas horas de vida do meu tio Ernani. Aquele tombo que o levara ao hospital, o derrubaria para sempre, concluindo sua falência que já a alguns anos se iniciara. Me lembrei dos presentes que ele me deu.

Foi no começo deste mesmo ano, num encontro que também era despedida, que recebi entre palavras, pedras e bugigangas um caderno com seus pensamentos escritos. Caderno que foi esquecido no carro por vários dias. Palavras simples, de um passado muito presente; dizem de um pensamento encarcerado pelo alto preço da liberdade. Encontrei o caderno vagando em casa após a notícia de sua morte no domingo pela manhã.

Sentado imagino e penso o que me aconteceu. Sinto-me…que estou só, estou pensando, estou sonhando.

Todas as histórias que possam contar-me sobre alguém, nunca dirão quem elas verdadeiramente são ou foram. São os nossos desejos contidos pelo impossível que nos fazem ser o que realmente somos. Somos aquilo que pensamos!? Somos aquilo que pensamos!

Devo admitir que, muitas vezes, pelas histórias, Tio Eranani, foi para mim o sinônimo de imprudência, mas é muito possível que eu tenha me enganado, pois nunca saberei o que se passava em sua mente, o que fazia com que ele agisse como agia. Agora é tarde para dizer algo, ficaram apenas as palavras do caderno e as lembranças dos outros. Devo eu falar aos que ficaram, então? … Mas é difícil! O que dizer de relações que não vivi? O que dizer a uma mãe que enterrou um filho? O que dizer aos irmãos? Aos filhos? Aos amigos de longa data? O que dizer de alguém que não fui? Como ele fazia, também ensaio no espelho e em meus pensamentos o que dizer, acabo por escrever e não dizer nada. Somos todos iguais nesse aspecto; ficam assim, todos sem saber o que pensamos e pensávamos de fato.  

Entre o espelho há um rosto tímido e confuso, isto são pensamentos somados. Me defino no presente sem sonho, afasto a fuga: Encontro! Há luz, não há sombra; de dúvidas.

Estamos vivos, mas quem somos nós? O que dizem ou vão dizer os outros sobre nós nos faz ser o que somos? Ficam algumas marcas de quem fomos, marcas de uma vida, escritos de um caderno velho e esquecido…

Longe vaga meu pensamento olhando do alto as montanhas. Na tua extensão…Sinto voar. A calma e a serenidade me atraem, os pensamentos negativos já não existem. E volto para analisar a minha convivência com as pessoas, retenho-me, porque certas atitudes não foram corretas. Tudo bem…Já aconteceu, não haverá mais volta. Esquece o que passou, porque não houve nada.

 

Para Ernani e família.
Andréia Maressa da Silva
São Bernardo do Campo, 17 de fevereiro de 2015.
[Em verde: Escritos de março 1984, retirados do caderno do Tio Ernani]
[IMAGEM: Escultura feita por Ernani, em Belo Horizonte, MG, Foto 2013]

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