Favela

Nasce uma favela noutro menino. Nasce um menino noutra favela. Morre a esperança de abrir a janela e ver lá fora o que há de novo. Não há novidades! 
Misturo-me aos meus pensamentos, descubro em mim angustia de ser; o que nunca fui.
Favela, qual a história dela?
Há mais dor em não saber o que é ser; mesmo não sendo. Ser o quê? Favela habita, favela habitada, favela vivida, favela-viva, viva a favela!?
Morro! Subo o, morro um pouco, todos os dias. Tiro daqui, tiro dali; as palavras não saem do lugar! Palavras em meio à tantos sons… Sonoridade das ruelas e dos becos sem saída; está aí a sua vida! 
Misturo-me aos meus pensamentos, novamente, há muita dor em saber o que existe nela. Só quem viveu a favela é capaz de abrir a janela e ficar à espera. Não há novidades! As portas, e as janelas, foram fechadas por outros. Não há paz, não há guerra e de pouco em pouco vai embora também a tal da espera. O menino cresce, rápido, a favela também. A favela cresce rápido, os meninos também. Morrem várias crianças faveladas que não viram notícias nas mídias. Enquanto casos de injustiça às crianças ricas viram seriado no programa do ‘Fantástico’. 
Acordo atormentada em meu pesadelo; um rato gigante saltou na cama dos menino. Vou fechá a janela; não tem vento que entre aqui. Não tem vento que sopre coisa boa presses lado. 
Menino bão, é menino trabalhadô. Saem da favela os menino, mas a favela deles num sai. Cidade grande, nela cabe tudo, só não cabe amor. Amor não se dá, amor se compra, se vende. E vai tudo os menino trabalha, vai atrás de resistro, que é pra modo de se assalariá. Que não é porque mora no morro, que tem que pinta de vagabundo. Quem é bão, termina os estudo e depende da misericórdia de Deus
Assombro-me. Nunca poderei ser, aquilo que nunca fui. Apavoro-me. Abandono meus pensamentos por um instante e acalmo-me. É mais fácil não pensar. 
Salta-me aos olhos a simplicidade daqueles cômodos, salta-me aos olhos a lembrança desses bairros. Altos estão no morro e são chamados assim de baixos aqueles que lá moram…Classe baixa. 
Misturo-me aos meus pensamentos, invento em mim a verdadeira compaixão. 
O menino e a favela, a favela e seu menino. Faz filho, mas não dá mãe; dá mão, dá jeito. Faz filho e não tem pai; tem peito, tem jeito. Abro a janela para entrar um ar, é preciso respirar, a bolsa vai estourar. 
Tanta coisa para escrever, mas ninguém vai entender. Letra feia…Na escola não tem favela, na favela tem escola, que não ensina. Escola pra quê? Não aprendi escrever! Ainda não entendi o que é FA-VE-LA. Que significa?
Desvelo meu pensamento arraigado às pesquisas. Não encontro nada que diga respeito ao que sinto. Donde vem então? FAVELA, FAVELA, FAVELA, FAVELA! Não me sai da cabeça essa cadela! Vagabunda!!! Vive dando por aí, oportunidades pros outros tentarem. Mera ilusão! Nunca serão, não…Favela não é de ninguém, não cuidam dela e ela não cuida de ninguém. Não me sai da cabeça…Me absorve essa ideia! 
Volto as discussões, pesquisas e perguntas…E no fim, quem desses já viveu a favela? Ninguém. Há mais dor em não saber o que é ser, mesmo não sendo. 

Quadro Bob Dylan

Misturo-me aos meus sentimentos, sinto em mim o peso da impotência. 
Favela qual é solução dela?
E nasce uma favela noutro menino. Nasce um menino noutra favela. Morre a esperança de abrir a janela e ver lá fora o que há de novo. Não há novidades
Andréia Maressa da Silva
São Bernardo do Campo, 23 de novembro de 2014. 
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