Onde está o outro par de meias?

Quando as pessoas perdem algo estão certas de que um dia vão encontrar o que procuram. Seja cedo ou tarde este objeto será encontrado em algum canto de casa. Daqui pra frente, aqui em casa, vamos nos perguntar; onde está o par desta ou daquela meia, e infelizmente, diferente das demais pessoas, teremos a sensação de nunca mais reaver as meias e o cachorro.
Não aguentava mais a longa caminhada. As patas, cansadas, carregavam o peso não só do corpo, mas dos traumas vividos ao decorrer de todos esses anos. Seu corpo sujo, abrigava doenças e dava-lhe um aspecto feio. Seus pelos não eram mais brilhantes como já fora o de um belo labrador marrom.
Andava sem destino? Ou seu destino já estava traçado? Andava. Um cachorro velho e acabado pelas ruas caminhava, ouvindo buzinadas e tomando chineladas. Pra onde ia esse cachorro? Ninguém sabia. Souberam apenas quando chegou ao fim do caminho. Esta era a casa dos Silva. Uma família incomum, que não pode deixar de notar aquele velho cachorro parado em frente àquele aconchegante lar.
A vida se condói da vida. E foi assim que Chico Brown entrou na família Silva. A principio ficou numa caixa de papelão, pois tudo foi de supetão. Fedia, e por isso ficou para fora sem acesso a casa. Comia e agradecia, mas voltava a dormir, pois longa tinha sido a sua jornada.
A esperança de uma melhora acompanhou de longe um sentimento chamado carinho. E assim caminhando, entraram em casa com o pobre cachorro, que já tinha nome e lugar pra ficar. Foi lá que Chico Brown entendeu o que era amar. Todos se adaptaram a chegada do novo membro, até o gato, que era ciumento.
Sorria e sofria, Brown tinha displasia. E este foi um dos motivos para que sua estadia se estendesse… A melhora nunca chegaria…
O cão a cada dia se tornava mais agradecido. Obedecia a todos os pedidos que lhe eram requeridos. Não reclamava de nada, nem encrenca arrumava! Era assim que agradecia aquela bela família, e entendia o que era amar. Mas achava que com aquilo não podia lidar… Era muito pra ele!, que daquilo, nunca antes havia experimentado. Se esqueceram das doenças e dificuldades de Brown, só se viam as melhoras e superações. Todos menos ele; o próprio cão. Cansado e sem muitas opções, Chico Brown, quis sair daquela situação, onde recebia tanto amor e em tão pouco podia corresponder.
Sem deixar motivos claros de um por que; resolveu tirar sua própria vida em busca da paz que nunca encontrou. Chico Brown, numa tarde de sábado, engoliu quatro meias, que ainda estavam pra lavar. – Por que fez isso cachorro tonto?! Não vê que te amávamos?  – Aos poucos foi parando de comer, beber e latir. Chegava a hora de partir.
Nem um ano se completou; e o cachorro voou. Foi pro céu. Já que não podia andar direito, foi voando. Mas deixou aqui seu corpo, para que afagássemos nossas mãos, em despedida, no seu pelo agora duro e frio, que já não trazia mais vida. 
Ele estava cansado – disse uma amiga – Então espero que descanse amigão! Era sua hora, e agora já não há mais o que fazer.  Quanto as meias, não acharemos outros pares, tão perfeitos, assim como encontramos você. Faça boa viagem! E gratidão por escolher passar seus momentos finais conosco.
 

brown

 
Andréia Maressa da Silva
São Bernardo do Campo, 06 de setembro de 2014.
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