Desencontro

-Tá perdida moça?

Esse foi o inicio de uma bela conversa. Tem coisas que a gente nunca esquece. E outras que a gente espera nunca esquecer. É extremamente necessário que não percamos a oportunidade de viver momentos únicos. Quando nos preocupamos demais, não vivemos e logo nos esquecemos. Aqueles momentos jamais voltarão. 

 

Aconteceu num ambiente totalmente desapropriado para se conhecer alguém especial. Um show. Música alta, gente bêbada e drogada, pessoas pouquíssimo preocupadas em fazer amizades ou criar vínculos afetivos, etc. Eu não sei exatamente o que estava procurando naquele dia, mas encontrei uma conversa gostosa, agradável, apaixonante e memorável. Quase a noite toda, troquei palavras com um desconhecido. Foram vários os elogios, será que haviam outras intenções? Ou eram apenas duas almas se aproximando? Era tão boa a conversa que nem liguei, apenas continuei onde estava. O tempo acabou, hora de ir! Quando nos veríamos novamente? Trocamos contatos e ficou em mim a esperança de um reencontro.

O tempo passou e não nos vimos. Mas a conversa nunca acabou. Vieram e foram mensagens, alguns convites para um reencontro se perderam no meio de tantas palavras. E foi surgindo então, a saudade, a vontade daquele momento, daquela lembrança, daquela conversa. Foi durante estes tempos então, que, andando na rua me deparei com sua figura e não parei. Apressada, em nada pensava. Calada voltei pra casa. Por que não parei?

Peito apertado, me veio a vontade de reviver aquele momento único, que hoje acredito não ter aproveitado como deveria. Chamei, gritei, berrei e ele ouviu. Vamos nos ver! Que alegria! E que alegria era essa em ver alguém que pouco conhecia? Nem sei eu!

 

Hora de dormir. Rolei na cama feliz a espera do reencontro com uma lembrança boa. Nem vi o tempo passar, já era dia. Pensei em seu nome. Será aquele que caiu do céu? Não leio tanto a bíblia assim para saber…Pensei em seu rosto. Estaria igual? O que iríamos conversar? Será que ele vai gostar? O que ele está pensando? Pensa ele como eu?

 

Eram tantas as inquietações que me distrai enquanto comia e um prato de vidro caiu em meu pé. Doeu, e o suco da uva misturou-se ao sangue e aos cacos. Marasmo! Logo hoje; tinha que acontecer algo assim. O atraso. Corri, mesmo assim; com o pé e o coração apertados.  

Cheguei. Onde estava? Ele não estava lá?! Ou não teria ido? Que loucura, pensei, ele não viria mesmo! Fiquei ali plantada por alguns instantes tentando entender o que me tinha feito chegar até ali. Ainda desacordada, voltei a caminhar. Ouvi o canto dos pássaros e neles busquei meu refúgio. Olhei pelo binóculo uma ave verde, era ele. Passando longe de bicicleta. Larguei tudo onde estava e corri atrás dele. Não gritei, apenas corri. As crianças do local me indicaram a direção. Corri e o perdi de vista. Ele se foi e nunca mais nos veríamos. 

 

Olhei novamente pelo binóculo em busca de alguma distração, achei a lente embaçada. Eram meus olhos mareados. Resolvi voltar pra casa. O desencontro me fez acreditar que ele teria raiva de mim. Me fez acreditar também que não não deveríamos nos ver. E que era eu quem deveria aprender que não se deve perder cada oportunidade única que me aparecer. 

 

Juntaram meus cacos espalhados pelo chão. Devia ter usado mais este meu coração. Agora é tarde. Ele se foi. 

 

Acordei me perguntando se eu estava apaixonada por ele, por um cara que troquei apenas algumas palavras. Era paixão sim. Me apaixonei por um momento que nunca mais vou viver de novo. Mesmo que voltemos a nos encontrar. 

 
binóculo

Andréia Maressa da Silva
Rio Claro, 08 de agosto de 2014. 

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