Canta Brasil


Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…


QUINTANA, M. Bilhete – Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. 2005. p. 474.

Estes versos tão famosos são usados pra falar de casais. Mas e se fosse a nossa pátria falando conosco?

É ano de Copa do Mundo, e dessa vez, depois de alguns anos, ela ocorre aqui no Brasil. Todos sabem o que acontece, mas quero fazer das minhas palavras um retrato da atual situação. Já viu isto? Retrato de palavras?

Ando nas ruas e por todo lado estou cercada de verde e amarelo. São as bandeiras do Brasil estendidas nas janelas dos carros, das casas e dos prédios. E se olharmos bem no centro delas podemos ler a frase: “Ordem e Progresso”. Ai que confusão que me dá, ver esta bandeira em meio ao caos da favela, em meio ao trânsito caótico das grandes capitais, nas aldeias em que índios ainda não sabem ler nem escrever o que veem na bandeira, nos comércios onde não há respeito com o trabalhador e tantos outros locais onde não se encaixa nem ordem nem progresso!

 

Estou certa que receberei duras críticas por este retrato. Mas vejam o problema não é a bandeira, nem a Copa do Mundo. O problema maior é esse “Amar quando todos estão olhando”, uma exaltação sem fim da pátria amada. Se alguém perguntar; “Pátria Amada, mãe gentil!!!”… Sendo que no fim das contas nem é pra ela mesmo que estamos torcendo… Mas sim pra um monte de marmanjo correndo atrás de uma bola. E é isso mesmo que você está pensando: uma coisa não tem nada haver com a outra. A Copa do Mundo não é o momento mais adequado pra se falar das nossas mazelas sociais.É pra falar de futebol mesmo. Gritar gol, fazer bolão, abraçar estranhos, fazer barulho e esquecer um pouco da vida dura.Só que isso passa, e passa rápido demais. É efêmero como qualquer paixão. Quando tudo acaba, voltamos à dura realidade, e o que fizemos além de gritar como loucos? É que enquanto você estava apaixonado, a vida acontecia.

 

Também não adianta nada tentar arrumar o Brasil agora. Eu fui pras ruas esse ano em protesto contra a Copa. Sair com um cartaz e mochila e cartaz era motivo pra polícia te dar umas boas bordoadas. E eu não fui às ruas quebrar as coisas como disse minha mãe pra mim, comprada pelo discurso da mídia, eu fui lá mostrar que estava chateada com o que está acontecendo. Foi difícil pra mídia e minha mãe entenderem que existem os quebradores (que tem lá seus motivos) e existem os que estão a fim de se manifestarem, de serem ouvidos apenas. Mas fomos calados. Silenciados pela polícia e pelos gritos de gol.

 

 

Não esperava também, como insinuou meu pai, mudar o mundo. Esperava apenas ser ouvida. Mas isso não ocorreu. Todos têm o direito de se manifestar. Eu amo minha pátria, e assim como todo povo brasileiro também estava gritando, mas não era pelo futebol…O que muita gente que está por aí estendendo bandeirinhas do Brasil não entende, é que sair às ruas é só mais uma forma de trazer a atenção de volta ao País. E assim vou chegando a uma conclusão…

 

As coisas continuarão depois da Copa, e sair às ruas só pra chamar a atenção não adianta muito. Tem que fazer acontecer no lugar onde você estiver! E depois que acaba tudo não adianta ficar reclamando se você não fez nada e só ficou gritando pro Neymar chutar pro gol! O Brasil não muda na Copa. Mas muda sim, diariamente, com as atitudes positivas de bons sujeitos que querem um País notável, não pelo futebol, mas pela realidade que estão lutando pra alcançar. Mandar a Dilma tomar no cu não é uma atitude que gera mudança. Mudança é não gritar no trânsito mandando alguém tomar no cu por que está andando dentro dos limites de velocidade. Entende? Temos que começar a compreender as nossas políticas individuais pra depois entender as públicas. O gigante não tinha acordado?

Depois da festa, as bandeiras saem. Por vezes ficam lá estendidas; esquecidas, sujas e rasgadas. Ainda haverá orgulho de ser brasileiro?

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Brasil, 24 de junho de 2014.
Andréia Maressa da Silva

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