Chip

É espantoso como funciona a memória. Talvez em meu lugar, um neurologista ou um psicólogo poderiam explicar melhor. Como bióloga, sei apenas que nossas células responsáveis pelas transmissões são os neurônios e estão no cérebro.
O título do meu texto leva a pensar que escreverei sobre um chip (Circuito Integrado Híbrido), não é mesmo? Quem entende um pouquinho de tecnologia sabe que nessas pequenas placas de circuito integrado, podem se armazenar milhares de informações. Poderia logo pensar também numa série de coisas que não estarão neste texto. Por coincidência, este também é o nome dado ao meu gato de estimação, que neste ano há de completar 14 anos. São quatorze anos de memórias compartilhadas, entre ele, eu e minha família.
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Foi na volta da escola que nos conhecemos. Eu e o Chip. Talvez ele já tivesse um “dono”, mas foi levado no colo por mim e meu irmão, que quase todos os dias vinha me buscar na escola.  A memória, incrivelmente, nos faz lembrar e recontar este episódio; eu, o Chip e o Heber (meu irmão), cada um a sua maneira. Poderíamos dizer que é um fato inesquecível, mas não é, porque um de nós poderia esquecer-se dele a qualquer momento.
Esses dias num encontro com velhos amigos lembraram-me de situações das quais eu mesma passei e não me recordava. Foi estranho. Cada detalhe lembrado vinha de um ponto de vista diferente de cada um. Poderíamos chamar isto de paralaxes do imaginário, que são movimentos alternados do pensamento, que provocam mudanças de significado. Esse termo, paralaxes, é originário da astronomia, e significa o deslocamento aparente de um objeto quando se muda a posição do observador. 
Caminhando neste tom, nessa conversa (você e meus pensamentos escritos), podemos chegar à conclusão de que o episódio do encontro entre eu, meu irmão e o gato; pode ser narrado de três maneiras distintas, sendo as três totalmente “verdadeiras”. Mas até que ponto falhas?
Lembro-me de tantas coisas, mas, ao mesmo, tempo tão poucas. Às vezes nem explica-las sei, só sei que lembro. E de certo, todos deveriam saber que não tenho controle das coisas que gravo em minha memória. E que muitas vezes nem sei a origem e procedência das lembranças. “De onde vêm essas lembranças?”. Posso usar como exemplo, situações em que odores me despertam lembranças. É tão peculiar quando isso acontece, não poderia explicar corretamente o que sucede, mas sei dizer com certeza não escolhi lembrar aquele odor.
Eu e o Chip nos vemos pouco desde que mudei de cidade. Sempre que o vejo, trato-o como se ainda fosse meu pequeno gatinho. Mas ele cresceu, está velho e certamente não é mais o mesmo. O que há comigo? E o que há com todos que me tratam como se eu ainda fosse a mesma? A memória de cada um retém aquilo que quer! E agimos de acordo com aquilo que está retido. Memória e aprendizado são quase sinônimos quando estamos falando de transmissões neurais. Aquela história de esquecer o passado, nesses momentos acaba parecendo bobagem… Parece que a gente não tem muita escolha.
Do que me lembrarei daqui alguns anos? O que vai ficar na minha memória? E a sua? Como contaremos nossas histórias?
Andréia Maressa da Silva
São Bernardo do Campo, 04 de maio de 2014.
Rio Claro, 11 de novembro de 2015.
Para Chip.
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