Cora Coralina

Uma conversa formal, porém franca com uma cachorra. Sim, eu estava conversando com uma cachorra durante uma festa. Eram poucas as palavras, mas as trocas de olhares e gestos diziam por si só.

Imagem

Há pouco tempo conheço a Cora  e já faz alguns anos soube da existência da ‘Menina Mal Amada’; a poetisa.

Quando ouvi pela primeira vez o nome dessa escritora, por coincidência, este também se referia a outra cachorra, dessa vez da minha tia que mora em Minas Gerais. Curiosa, perguntei o porquê deste nome pra tia Ana, então ela me disse; “trata-se de uma grande escritora que estudei na escola, você não se lembra dela?”, e disse que não.

Voltando a minha casa em São Paulo não me dei ao trabalho de procurar sobre a tal escritora. Ela caiu no esquecimento, mas levantou-se depressa chegando até mim na forma de revista; lá estava seu nome estampado na capa.

Nascida em 1889, a poetisa goiana Cora Coralina teve seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás, publicado aos 76 anos de idade. Só depois de “velha” foi receber seu devido reconhecimento.

Acontece que não vim reescrever uma bibliografia já existente da vida de Ana Lins ou Cora Coralina, vim valorizar minha memória e comovente beleza que vivi naquele dia com a Cora cachorra.

Faz um tempo que as pessoas já não me trazem tantos encantos. No meio de tanta gente fui buscar a companhia de outro animal, um mais humano. Ela estava deitada de frente ao portão olhando o movimento na rua.

Essa cadela é tão introspectiva e morna que poucas vezes parece mesmo um Canis familiaris. Aquele olhar dela…Não sei não! Vai ver é porque ela já tem certa idade e não está tão afim de graça como todo cachorro normal.

Enquanto estávamos observando o movimento através das largas frestas do portão, percebi olhando de relance para ela, toda a profundidade existente em seu olhar, algo como quem diz em sua sabedoria de velho: “é tudo vaidade”. E eu estava lá toda preocupada com quem ia passar, com quem passou, com que ia fazer e o que tinha feito. Mas ela me disse sem muita rima e métrica que tudo passa, é tudo passageiro. “Você não vê como passam apressados estes aí?! Descanse e confie que tudo passa e perde a graça.”

Eu finalmente disse, com muita vergonha, que ela estava à frente do tempo, quis dizer que ela era um cachorro diferente, sem entender ela baixou a cabeça ao chão, fechou os olhos e dormiu, como todo bom cachorro ao receber um cafuné.

ANDRÉIA MARESSA DA SILVA
Rio Claro, 16 de abril de 2014.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s