Boto Fé

De todas as expressões possíveis e impossíveis em situações dispensáveis, “boto fé” é a pior delas.

Tudo começou numa discussão com aquele cara, aquele bonitinho que eu estava de ter-lê-lê, ele falou: “Boto fé no que você tá sentindo”. E todo o encanto acabou. Vamos analisar a sintaxe dessa maldita expressão. Mas antes, uma bela percorrida no significado de sintaxe.

Sintaxe é uma das partes da gramática que estuda a disposição das palavras numa frase, também a relação lógica das frases entre si. Ao emitir uma mensagem verbal, o emissor procura transmitir um significado completo e compreensível. Para tanto, as palavras são relacionadas e combinadas entre si. 

Agora que você já sabe disto, toda vez que você ouvir um “boto fé”, procure analisar o significado completo e compreensível dela. E digo mais: a relação lógica das frases entre si!

O que tem a ver uma pessoa botar com o processo de ter fé? Eu deposito fé. Eu ponho fé. Eu pouso fé. Eu emboto fé. Nada disso combina. Não faz muito sentido. Nem na sintaxe, nem na forma prática.

Pare pra pensar! Você é um deus por um acaso? Do que vale a fé da pessoa naquilo que você acabou de falar? Pelo menos pra mim não vale nada. Eu quero pratica! Eu quero um conselho! Eu não quero a sua fé, que nem sei se é lá tão confiável assim.

Quando eu falo que o mar é azul, eu não quero que você me diga: ‘Pô mano boto fé!’, eu quero que diga; ‘é realmente linda a cor azul do mar!’ – E NÃO! AS DUAS EXPRESSÕES NÃO SÃO SINÔNIMAS!

As pessoas às vezes criam umas frases como válvulas de escape quando não tem o que falar. Mas poxa, estamos substituindo o que dava pra ser uma bela duma conversa por um monólogo desdenhoso com participação de duas ou mais pessoas. Principalmente quando ‘boto fé’ é colocado como frase enfática e final. O assunto morre vago.

Algumas dessas frases idiotas nem tem o que fazer mais. São o caso de “oi, tudo bem?” e “prazer em conhecê-lo (a)”… Pra que perguntar se está tudo bem se não quer saber da resposta?! Ou por que dizer que sente prazer em conhecer alguém que ainda nem mesmo conhece?!

Essas frases e principalmente o “boto fé” estão destruindo as conversas plenas, as belas frases que poderiam ser ditas. Uma tristeza! Tudo por preguiça, moda ou falta de criatividade? Que aflição! Boto fé que não vai adiantar ficar reclamando desta maneira, mas eu precisava dizer que às vezes me irrita muito botar fé nas coisas.

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Andréia Maressa da Silva
São Bernardo do Campo, 26 de fevereiro de 2014.

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