Sobre ser negra

Eu não sou preta.  E não sofri discriminações violentas e resolvi escrever um texto de revolta. Eu só andei refletindo sobre algumas inverdades do ser negra.
Li um texto faz alguns meses, de um cara, também negro, que falou palavras parecidas com as que pretendo escrever agora.
Eu não sou preta, a cor da minha pele é marrom. Não sou negra. Sou marrom. E a ‘cor de pele’ qual é esta nos lápis de cor? Rosa claro? Minha pele também tem cor e ela é marrom. Marrom médio escuro.
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Eu tenho melanina sim. E todos têm. Assim como todos têm um cérebro, um coração, dois pulmões, um fígado, um baço, medula, nervos, sangue, células e milhares de organelas… Somos senão iguais, muito parecidos por dentro.  A coloração normal da pele, dos pelos e do olho se deve igualmente à melanina, um pigmento acastanhado que aparece em negro quando mais concentrado. A melanina contida na pele tem a função fundamental de proteção. Protege a pele contra raios solares.
A melanina não tem nada a ver com sambar. A melanina não tem nada a ver com correr bem. A melanina não tem a ver com os crimes. A melanina não tem a ver com a profissão. A melanina não tem a ver com os direitos. A melanina não tem nada a ver com tomar sol e ser ‘o bronzeado’.
A minha cor não justifica a minha condição. A minha cor justifica como posso lidar com algumas adversidades ambientais, como a radiação solar. Nada mais que isso.
Quem me vê marrom não pode dizer mais nada sobre mim, além do fato que eu sou marrom. Sou a mistura, sou a miscigenação e todos são. Quer queira, quer não
Não é porque sou ‘negra’ que devo me envolver nos movimentos sociais a favor dos negros. Eu também não preciso sujeitar às cotas. Eu não vou cantar rap. Eu não vou usar meu cabelo para cima, a não ser que queira. Meu cabelo é bonito do jeito que eu o achar. Posso até não assinar a revista Raça. Não vou comemorar o dia 20, e não sou obrigada… Eu não sou escrava e não conheci meus antepassados. Acho que as pessoas chamam isso de criar estereótipos. É isso?
É. Eu sou o que eu quiser ser, independente da cor da minha pele.
Sou rosa, sou azul, sou verde, sou preta, sou negra. Cara, eu só não sou morena! Não tenha medo de dizer negra. Mas não me chame de neguinha se você não me conhece. Lembre-se eu sou marrom. Compreende?
Brincadeiras a parte, as pessoas deveriam ter mais cuidado quando criam uma personalidade estereotipada pela cor da pele. Como se todo índio fosse iletrado e andasse nu, ou japonês fosse superdotado e o indiano vegetariano. Não é assim que as coisas funcionam.
Eu nunca, NUNCA, sofri nenhum ataque violento por causa da minha cor. Mas esses ‘exemplos’ citados ao longo do texto às vezes me deixam preocupada. Será que estamos vivendo outro tipo de preconceito? Não aquele que segrega, mas aquele que faz as pessoas suporem coisas que não são…?
Fica a dúvida.
Andréia Maressa da Silva
Rio Claro, 01 de Fevereiro de 2014.
Editado ao longo de 2015. 
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2 comentários sobre “Sobre ser negra

  1. Simplesmente você, simplesmente Maressa. Obrigada! Ser autêntica é tudo que importa. Parabéns pela imspiração, pelas palavras, pelas verdades que muitos tem medo; porque se colocar numa condição simplesmente pela quantidade de melanina “só segrega mais o que já está segregado”.

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